personnalités presse let's talk events smoking lounge home

presse

arabe

Arrajol | Le monde du cigare humeur et sensation [6mb]
Watch Me | Les femmes aussi aiment le cigare [4mb]
Day&Night version arabe | Gérard l'expert du cigare [3mb]

deutsch

CIGAR | Der Prophet der Zigarre [3mb]
H.O.M.E. | Connaisseur Zigarren [1mb]
Bilanz | Savoir-vivre [656k]
Cigar | Historisch und anthropologisch relevant [443k]
Cigar Cult | Magic Havana
Cigar Cult | Der Visionär unter den Zigarenhändlern
Der Feinschmecker | 100 Traumziele
Cigar Cult | Gérard Père et Fils

english

Shant TV Newrork | Armenians of the world
O VIRTUOZITY | Power of positive thinking [3mb]
Hors Ligne anglais | Cigar Tales [3mb]
Kempinski Europe | Taste Geneva [5mb]
Fly&Style | a question of good taste [2mb]
Day&Night version anglaise | All in good taste [2mb]
Chopard | Passions [3mb]
Robb Report | Bank Rolled [839k]
Leaders | No Smoking !
Tendances | Is Geneva still Geneva today?
Cigares & Co | Gerard : a real institution
Cigar Cutter | Big brands eye the new world [807k]

français

LIBERATION NEXT | Fume c'est du Suisse [n/a]
Migros Magazine | LE MONDE DE...VAHE GERARD [n/a]
Tribune de Genève | Les cigares jonglent avec les formats insolites [185k]
BANQUE&FINANCES | Le Behike [3mb]
TV CIGARE | Cigare Sélection [860k]
BANQUE&FINANCE | Volupté [295k]
TRIBUNE DE GENVE | Tendance [736k]
MARKET.CH | LES SENS EN EFFERVESCENCE
LongLife | Collectionner et préserver [4mb]
Tribune de Genève | Genève, irréfutable capitale du cigare [292k]
La Tribune de Genève | Voyage gourmand au Kempinski [286k]
Le Dauphiné | L'un des auteurs de "Flor de Luna" sur les rives du Léman [701k]
Le Magazine de l'Homme Moderne | L'Homme aux Cigares [2mb]
Le Figaro magazine | Le cigare: volutes et volupté [3mb]
Hors Ligne français | Contes du Cigare [2mb]
Art de Vivre | Flor de Luna [402k]
France Magazine | Entretien avec... [2mb]
Le Matin | Le Cigare fait des bulles Tome2 [1mb]
GHI | Thierry Roland [771k]
Le Matin | Thierry Roland [280k]
Journal du Net | Jusqu'à 400 euros pièce, voici les cigares les plus chers
Prestige | Gérard Père et Fils Une histoire, une passion [1mb]
Murmures | Flor de Luna: Pour l'arôme d'un cigare... [619k]
Paris Match | Art&Culture [541k]
SwissWhisky&Cigare | Si Dieu était un fumeur de Havane [3mb]
Télé Journal Romand le 13 août 2007 | On parle cigares!
Télévision Suisse Romande | Romands d'aventures chez Gérard le 18 août 2007
Art de Vivre | Le pape du cigare [3mb]
Dauphiné Libéré | Un héros nommé Havane [522k]
20minutes | La première BD qui gravite autour du cigare prend racine à Genève [788k]
Tribune de Genève | Genève capitale du havane, mise en scène dans une BD d'aventures [1mb]
Le Matin | Le cigare entre en BD [789k]
Luxe-magazine.com | Private Bank:le Big Brother du Cigare!
Club Cigare | Vahé Gérard l'art de la différence [685k]
Le Matin | Banque privée pour cigares [1mb]
Le portail des Auteurs | Volutes et volumes: Rencontre avec Vahé Gérard [91k]
Edgar | J'ai fumé le cigare avec... [959k]
Le matin | Vahé Gérard Roi du cigare cubain [596k]
Magazine du puro | Soirée cigares au Château de Gilly
Cigares & Co | Cigares party de nos Députés à Genève
Actives | Mythiques cigares de la Havane
Cote Metropole Lyon | Nec Plus Ultra Cigare Obligatoire
Gault Millau | Le premier cigare
Magazine du puro | Gérard Père et Fils
Le Point | Fumeurs de Havane
Tendances | Genève, capitale du cigare.
Cigares & Co | Gérard : une institution
Cigares & Co | 'Les Saintes Ecritures du Cigares' de Vahé Gérard
L'agefi | Volutes de Classe
Edgar | Cigares en ligne
Cigare Club | Les meilleurs Cigares du monde...selon Gérard
Bilan | Les tuyaux d'un gourou
La Tribune | Tables de Fêtes
Magazine du puro | Le Club des Parlementaires
Agefi évasion | Consécration méritée [176k]
Edgar | Elu homme de l'année [256k]
TRIBUNE DE GENEVE | Tables de Fêtes [141k]

greek

In2life | Bon viveur [268k]

italian

Smoking | Gérard: E il cliente il vero protagonista
Smoking | Un Salotto per Avanofili su Lago di Ginevra

japan

Humidor | Cigar Life Style Magazine [1mb]

português

iG LUXO | Fumaças exclusivas
Epicur | Na intimidade da casa Gérard

russian

Rich Style | Gérard [555k]
Rich Style | Bank of Cigars [792k]
Yerevan | Cigar Banker [845k]
Cigar Gourmet | Cigar Lessons [150k]

spanish

GENTLEMAN | Gérard El Templo Sagrado Del Puro [5mb]
Epicur | Línea personal de Gérard [817k]
Epicur | Reunion de los parlamentarios franceses [836k]
Gourmetabaco | Un canario en el podíum
Epicur | Reunión de los Parlamentarios Franceses
Epicur | Barcelona Cena con Vahé Gérard
Epicur | Puros de autor
EPICUR | Vahé Gérard [6mb]
Epicur | Encuentro en Ginebra [1mb]



Epicur


Na intimidade da casa Gérard
Año 1 N° 3

A cave de charutos de Gérard Père et Fils lembra um banco com os seus cofres alinhados e estanques, a visita guiada fez-me pensar que Luís XIV me mostrava os seus jardins de Versalhes.
A entrevista é o condensado de três horas de conversa entre amador e profissional.
Quando o meu amigo Gaetano Stucchi, uns dias depois de eu ter terminado as filmagens do meu último filme, me telefonou para me convidar para presidir ao júri de um prémio da UER ( Uniao Europeia de Radiodifusão)para o melhor argumento de televisão, não hesitei. A Sede da UER é em Genebra e, apesar do frio glacial que os boletins meteorológicos anunciavam, três dias em Genebra davam-me a ocasião de entrar na intimidade da casa Gérard Père et Fils, que na mitologia dos amadores de charutos, é uma espécie de caverna de Alibabá, onde se guardam tesouros mitológicos. Eu tinha passado dois meses a fumar charutos distraidos que, por vezes, me ajudaram a pensar no meu trabalho, com uma calma dificil de conseguir no clima frnético das filmagens, e que, outras vezes, eu masquei para enganar o nervosismo ou a frustração.
Com a ajuda do director da Epicur combinou-se rapidamente uma entrevista. Fui recebido pelo filho, que me dedicou uma manhã de conversa, depois de me ter feito visitar a cave, uma espécie de banco onde se guardam às sete chaves e em condições rigorosas os melhores charutos que se produzem em Cuba. Se a cave de Gérard Pére et Fils lembra um banco com os seus cofres alinhados e estanques, a visita guiada fez-me pensar que Luís XIV me mostrava os seus jardins de Versalhes.
No fim, tive o prazer de comprar algumas caixas, entre os quais uns Shorts da Partagas, que ele me apresentou, como se verá na entrevista, como o charuto do próximo século. Se o é ou não, o que posso dizer é que me regalei, depois do almoço, com um charuto perfeito - o que é difícil nos modelos pequenos e de que sou pouco aficionado -, como me regalei depois com uns Sir Winston e uns Ramon Allones - Special Selected -, que me proporcionaram verdadeiros momentos de exaltação epicurista.
A entrevista que se publica é o condensado de quase três horas de conversa onde o amador e o profissional passaram de vez em quando a palavra um ao outro. Se foi dificil, senão impossivel, levá-lo a falar de preferências, o que se entende, não foi dificil pô-lo a falar com paixão da sua eterna e inesgotável curiosidade por esse produto único que um dia Cristovão Colombo descobriu na boca de uns seres exóticos do outro lado do Atlântico e que ele e o pai, como verdadeiros feiticeiros, ajudaram a tornar-se, como gostam de dizer, uma pequena obra de arte.

António-Pedro Vasconcelos: Vou começar por uma pergunta de um amador para um profissional. Com a sua experiência, o que é que diria que faz um bom charuto, isto é, o que é o mais importante, a qualidade da folha, os processos de fabricação, a forma como os conservamos... Gérard fils: Sim, desde a criação da folha até à realização do charuto, até à sala de maturação, até chegar ao consumidor que o vai saborear, é isso tudo: é uma alquimia feita de paixão, de amor, de qualidade... A qualidade final dum charuto vai depender da meteorologia - o sol, a chuva, a temperatura -, da maneira como chegou às fábricas, da escolha da qualidade da matéria-prima, a qualidade do torcedor. É preciso compreender que um charuto, a um certo nível de qualidade, é como um objecto de arte, feito de mil e um segredos que vão contribuir para a qualidade deste produto. Posso-lhe dizer que temos aqui na nossa cave, por exemplo, alguns produtos a que demos uma boa maturação e que ganharam por conseguinte um valor acrescentado ao nível qualitativo. A conservação a longo termo permite ao charuto desabrochar, porque não podemos esquecer que estamos a trabalhar um "produto de boca", e não podemos gerir um "produto de boca" como gerimos um produto fabricado pela tecnologia, é impossível. É preciso compreender que nós somos artesãos e devemos continuar a ser artesãos, porque é a melhor maneira de proteger um produto extraordinário que é ao mesmo tempo para o consumidor um produto de evasão e que faz parte da "arte de viver". Por isso,
não podemos comportar-nos como industriais. A indústria do cigarro, por exemplo, é já outra perspectiva.

APV: Faz-ma lembrar a célebre frase de Mairaux sobre o cinema: "além disso, o cinema é uma indústria. Porque o charuto é também uma indústria, mas é importante que ele contínue a ser, na sua fabricação, artesanal. Por exemplo, que seja feito à mão.
G: Que ele seja feito à mão, sim, mas que todas as etapas sejam artesanais. Eu não imagino, por exemplo, que a colheita das folhas seja feita por uma máquina, mesmo se amanhã se descobrir a mais sofisticada das máquinas, porque a mão do homem tem um papel decisivo na fabricação do charuto.

APV: Os vinhos por sua vez evoluíram de uma forma mais Industrial, incorporaram novas tecnologias.
G: Mas, quando me fala de vinhos, não me fala dos grandes Portos que vocês têm em Portugal, não me fala dos "Châteux Pétrus", não me fala das grandes casas de "fine champagne" que continuam a trabalhar como antigamente. Claro que nós tivemos uma evolução tecnológica na fabricação dos charutos, e foi sob o impulso europeu, que remonta ao século passado, que essa tecnologia foi posta à disposição da matéria-prima, mas quando nós chegamos a um certo nível de qualidade do produto, já não o podemos fazer com a máquina.

APV: Como os queijos, por exemplo.
G: São tudo "produtos de boca", em que o trabalho que se faz é muito mais frágil, muito mais sensível, e não podemos fazê-lo com a máquina, mesmo se o charuto é especial. É evidente que, por um lado, há a racionalidade económica e o lado industrial, mas no final o que conta é o saborear do charuto, o sonho e a evasão, a cultura, enfim, que já não é racional.

APV: Mas o que é que faz com que Cuba contínue a ser a pátria prívilegiada dos charutos? Um charuto da República Dominicana, por exemplo, nunca será igual a um havano.

G: Não é nem é desejável que seja. Cada charuto tem as suas características.

APV: Mas as condições tecnológicas, os métodos de fabricação podem importar-se. O que não se pode importar
é a qualidade do solo, o clima...
G: Absolutamente, o que eu digo é que graças ao sol, graças às condições climatéricas e graças ao plano de trabalho agrícola que permite melhorar as terras; é graças a um conjunto de condições geográficas, é uma questão de riqueza do solo, tem a ver com a natureza. Se você é amador do vinho, sabe que os vinhos duma região como Sant-Emilion não têm o mesmo gosto dos vinhos da região de Saint-Nectaire. O que quer dizer que, mesmo se se trata da mesma região geográfica, dum terreno para o outro, os vinhos são diferentes. O mesmo se passa com o próprio tabaco cubano, que varia em função da região. Portanto, como é que era possível que o tabaco que vem de outro país, mesmo que geograficamente próximo, não desse origem a produtos diferentes? Mas eu creio que isso é bom, porque permite hoje ao consumidor compreender que o charuto cubano estendeu ele próprio de uma maneira colossal os seus aromas iniciais. Recorde-se que nos anos 50, 60, os charutos tinham uma conotação, no plano do gosto, muito mais tipifícada, muito mais "corsé", e hoje em dia nós conseguimos aromas que são muito mais suaves, muito mais ligeiros. Podemos sempre explicar as razões em função dum outro tipo de clientela mais jovem, por exemplo, o que é bom.

APV: Porque obriga a diversificar.
G: E obriga toda a gente a bater-se pela qualidade do produto. Nós assistimos, nos últimos anos, à evolução do tabaco na República Dominicana ou na Jamaíca, mas o que é certo é que, quando nós vamos ao fundo do problema, o charuto cubano guarda uma notoriedade em matéria de gosto que até hoje não foi ultrapassada. Mas eu penso que a variedade é uma coisa boa, porque hoje o consumidor, mesmo se em geral começa pelos charutos mais suaves até chegar aos produtos mais "corsés", gosta de ter à sua disposição, digamos, uma paleta de gostos.

APV: Depende também do momento do dia, por exemplo. G: Claro, depende de muitas coisas. Houve uma época em que nós só tínhamos fotografias a preto e branco e as pessoas as achavam óptimas, mas no dia em que passámos a ter fotografias a cores as pessoas já não se contentam com as fotografias a preto e branco. Isso alargou a possibilidade de escolha e, portanto, o prazer de descobrir.

APV. Mesmo se não melhorou necessariamente a qualidade da fotografia que se faz.
G: Claro, mas aí temos que distinguir novamente as questões técnicas do resto. O que eu penso é que hoje o consumidor é muito mais apurado. O que eu digo é que se há 30 / 40 anos atrás a atitude do fabricante de vinhos, por exemplo, era de dizer: "foi o melhor que eu consegui", e ficar-se por aí, hoje isso já não pode acontecer, hoje temos que estar atentos ao gosto do consumidor: é o consumidor que dirige o mercado.

A.V.P. Há um perigo nisso...
G : Sim, há um perigo, mas também é verdade que o gosto do consumidor mudou.

A.V.P. : Explique-me por que razão em 1960/70 os charutos mais vendidos eram em geral ou os panatelas longos ou os pequenos coronas, e hoje as pessoas consomem os robustos, que se tornaram o charuto deste fim de século...
G : Para além do seu lado descontraído, jovial, da sua boa combustão, etc., eu creio que por detrás disto há outras coisas, e que a arquitectura e o gosto estão ligados a um tipo de sociedade. Eu explico-me: você está de acordo que a maneira como se construíam as casas no século XIX era diferente do que se faz hoje. Por razões de ordem económica, estética...

APV: Um novo modo de vida...
G: Exacto. Por todas essas razões, a verdade é que nós incorporámos novos elementos, o vidro, por exemplo, e evoluímos para novas formas. Ora, eu penso que, em matéria de gostos, nós temos exactamente o mesmo paralelo. Em matéria de charutos, o que é que se passou? No início dos anos 80 houve a descoberta dos robustos (e não se pode esquecer que este formato já existia antes, não é uma novidade, mas a verdade é que ninguém o comprava.)
Você dir-me-á que é um charuto que agrada mas, por trás desse prazer que nós temos em saborear um charuto, eu creio que, primeiro, nós criámos a procura do gosto instantâneo, imediato, quer dizer que não esperamos que o charuto evolua até à euforia, mas que nos dê uma satisfação imediata. E porquê? Porque vivemos mais depressa. Enquanto o meu avô dormia a sesta depois do almoço todos os dias, eu não tenho condições para dormir a sesta todos os dias, Temos, portanto, essa osmose entre o homem e o produto que se cria e que, no meu entender, explica que o robusto - suave ou "corsé" - se tenha tornado o charuto deste fim de século. O que estou profundamente convencido é de que através do modelo nós podemos explicar a época, o modo de vida e você vai ver que o charuto do próximo século vai ser, no meu entender, um charuto onde nós vamos voltar aos tamanhos pequenos e médios.
APV: É pena. Espero que os churchill e os duplos coronas não acabem!
G: Claro, mas, para o modo de vida actual, os charutos vão ser muito mais pequenos. E vai ser muito mais difícil fazer charutos com uma tonicidade, gostos, aromas de pequenas dimensões. Mas não se esqueça de que os pratos ou os vinhos que nós comíamos e bebíamos há 25 anos atrás não são os mesmos que comemos e bebemos hoje. Por isso, como é que quer que a evolução do charuto não vá no mesmo sentido? Você diz-me: "É pena." É verdade, porque é o património gustativo que vai desaparecer, e nós devemos conservá-lo. Por isso, a única coisa que eu peço é que os fabricantes de hoje não esqueçam o gosto de ontem, talvez através de uma pequena produção, uma produção talvez limitada, mas não se pode perder a riqueza do gosto, a paleta dos aromas.

APV: O que você diz é curioso, porque eu próprio descobri o prazer do charuto através do robusto, foi o robusto que me fez, finalmente, descobrir o charuto, mas o que é curioso é que depois de ter consumido robustos e mais robustos e me ter tornado um amador de charutos, comecei a descobrir a a ter necessidade de grandes formatos, o duplo corona ou, por exemplo, um dos charutos de que mais gosto - mas para o fumar é preciso ter tempo para o poder apreciar - e que é o Monte Cristo "A".
G: É verdade que o robusto se tornou qualquer coisa de utilitário porque as pessoas não têm tempo, vivem a grande velocidade.

APV: Mas eu penso que uma das coisas que os verdadeiros amadores procuram no charuto é precisamente o tempo, porque a nossa vida não nos permite ter tempo.
G: Mas nós, enquanto fabricantes ou vendedores, podemos aconselhar, mas não temos o direito de impor o gosto, porque de alguma forma é do seu prazer que se trata, de alguma forma é o seu jardim secreto, e eu não posso entrar no seu jardim secreto. Posso ajudar o meu cliente a fazer o seu jardim, dizendo-lhe "repare neste charuto", dizendo-lhe quais são as vantagens e as desvantagens, mas eu devo ficar no exterior do jardim secreto, o seu jardim secreto é seu, é a maneira como você gosta de escolher o seu charuto, de o sentir, de o tocar, de o viver, e é isto que lhe vai dar o prazer.

APV: Mas é preciso, de alguma forma, que o charuto seja raro, como o caviar ou as trufas.
G : Eu penso que tudo o que é bom, muito bom, é raro.

APV. Mas a verdade é que hã cada vez mais consumidores de charutos, e é preciso que o produto continue a ser bom, de qualidade. Ora, nós não temos maneira de o multiplicar infinitamente. Então como é que se concilia a necessidade de produzir mais com a qualidade? Tornando-o cada vez mais caro? Eu sirvo-mo de um exemplo muito simples: os Estados Unidos graças ao bloqueio americano, não consomem, a não ser clandestinamente, charutos cubanos Mas no dia em que o mercado americano se abrir aos charutos havanos - porque isso vai acontecer -, como é que nós vamos lidar com este problema, porque vai multiplicar-se a produção, com o risco de diminuir a qualidade.
G: Hoje nós não temos essa situação, fisicamente não temos essa situação.
APV: É preciso prevê-la.
G: Eu creio que é preciso ter em conta também que o gosto, ou, melhor dizendo, os gostos, na América do Norte como na
América do Sul, não são os mesmos que na Europa. Depois, quando falamos desse gosto especial dos havanos, será que, independentemente duma vaga de moda, vai ser um gosto que vai agradar a longo termo ou imediatamente? É preciso dar tempo aos americanos para terem gosto pelas coisas novas, independentemente dum fenômeno de moda, que pode durar 1 ou 2 anos. Nesse momento teremos de ver de uma maneira precisa se é possível fabricar mais charutos em Cuba - e isso já está a acontecer - conservando a qualidade, mas penso que os mercados quaisquer eles sejam, europeus, América do Norte ou outros, deverão ser abastecidos de maneira qualitativa. É preferível um aumento dos preços, porque o produto é raro, a fazer um produto de massas, que de alguma forma será sempre caro, mas que não terá talvez a qualidade desejável

APV: E, mesmo com o aumento possível da produção em Cuba, será possível manter a qualidade artesanal dos charutos, no dia em que o nível de vida e, consequentemente, o preço da mão-de-obra aumentarem,
sem atingir preços proibitivos?
G: Bom, há que ter em conta que existe já um mercado muito importante - o continente americano, incluindo a América do Sul, o México e o Canadá - que tem outra imagem, mas que é também importante, para a produção dos charutos enrolados à máquina. Isto confirma de alguma forma que o consumidor não é o mesmo, mas o consumidor europeu tem uns séculos de avanço, porque conhece o produto, viveu com ele, porque o seu avô era um amador de charutos, porque o seu bisavô conhecia o produto. . .

APV. Mas no dia em que Cuba se abrir e se desenvolver será que havará pessoas prontas a fazer este ofício?
G: Esperemos que sim, a questão é que mesmo com a mão-de-obra mais cara, se o produto é de qualidade, ele terá um lugar no mercado, mas é verdade que, de alguma forma, eu penso que faz parte do património cubano, que é uma riqueza para aquela ilha poder manter a tradição de fabrico e que por nada deste mundo se deverá perder, é um cartão-de-visita extraordinário.

APV: Uma última questão: o que faz a vossa reputação, mais do que a de fabricantes, é o cuidado posto na conservação, a qualidade com que eles chegam aos clientes. Podemos dizer que, além da evolução do gosto do consumidor a da variedade de formatos e tipos de charutos, um dos grandes progressos que se fizeram foi no domínio da conservação?
G: Há clientes que nos chegam aqui e dizem: "é curioso, porque o charuto que eu fumei há dias, da mesma marca, era diferente do que comprei aqui." O que se passa é que nós trabalhamos o charuto, porque é um produto que vive.

APV: Estamos a falar de charutos que foram feitos em condições perfeitas: desde a qualidade das folhas aos processos de maturação e de fabrico. No seu entender, um charuto melhora, como os bons vinhos depois de algum tempo de conservação em boas condições ou a conservação limita-se a, como o termo indica, conservar-lhe as qualidades?
G: Um charuto pode ser bom quando sai da fábrica, quando o fumamos num certo contexto. Pode ser fumado imediata-mente, mas a verdade é que o desabrochar do gosto, dos aromas, as misturas, não foi feito. De qualquer modo, terá um gosto completamente diferente. Uma vez que o seu charuto, que é composto de uma tripa, que é por sua vez composta de diferentes tipos de tabaco no interior, que se casam e fazem a mistura dos vários aromas, o gosto é completamente diferente. E, conforme o tipo de charuto, o tempo de maturação é diferente. Como com os vinhos. Sabemos, por exemplo, que um Hoyo de Monterey ou um Rey del Mondo precisam de menos tempo de maturação do que um Punch ou um Partagas.

APV: Mas, apesar de todo esse cuidado, a verdade é que o prazer que temos ao fumar um charuto, mesmo em excelente estado, mesmo da mesma caixa que outro que fumámos uns dias antes, nunca é o mesmo, e que há charutos que nos dão uma satisfação inesquecível. E é, finalmente, essa a magia do charuto. Como em toda a relação de prazer, que é uma relação entra a expectativa e o resultado.
G: Claro. O mesmo se passa com os vinhos e com todos os "produtos de boca". Eu conheço amadores de vinho que passam mais tempo na cave a escolher as garrafas que vão levar para o jantar do que no próprio jantar, Porque, para além da escolha, há um instante extraordinário em que esse homem vai, não apenas escolher, mas viver o instante em que vai olhar para as garrafas, e não apenas olhar mas lembrar-se como descobriu aquele vinho, a última vez que o bebeu, onde o comprou, e esse é o tal jardim secreto de que eu falava e em que nós, profissionais, não temos o direito de entrar. O mesmo se passa quando escolhemos o charuto que vamos fumar. Olhamo-lo, mexemos-lhe, pensamos no que vamos comer e beber, se estamos cansados, se estamos eufóricos, o que é que esperamos que o charuto nos traga, e há momentos em que o charuto que escolhemos corresponde exactamente às nossas expectativas, ou mesmo em que as ultrapassa. E esses são momentos mágicos, que compensam todos os outros.

Retour au sommet